Uma ''Universidade no Ar''

Por Luana Lila 

Cercado por aparelhos de rádio de diferentes tamanhos e formatos, um homem de olhos atentos pressiona os dedos contra um modelo grande e retangular. Aos poucos, o barulho forte do chiado que toma conta da sala diminui, enquanto uma melodia estrangeira lentamente se forma, atendendo às expectativas de Cassiano Macedo, que, satisfeito, interpela a repórter com um largo sorriso. 
“Conhece esse som? Estamos ouvindo uma música indiana”. Apesar do leve ruído, o som alegre deixa constatar com surpresa a conexão com a Índia, possível através de uma rádio que transmite em ondas curtas até a pequena sala encravada na Zona Leste de São Paulo. 
No escritório escuro e abarrotado, as prateleiras sobrecarregadas parecem querer cuspir os milhares de CDs, fitas cassetes, livros e apostilas que, em comum, reúnem apenas um interesse: a paixão de Macedo pelo rádio. 
É lá que o professor de história da rede pública cultiva um hobby que começou aos 15 anos, quando ouviu pela primeira vez o hino da internacional comunista, em plena década de 60, sob a censura da ditadura militar que assolava o país. 
Tal façanha só foi possível porque ele conseguiu sintonizar a Rádio Internacional da China através das ondas curtas. Foi por acaso que ele virou uma chave no velho aparelho que tinha em sua casa e descobriu que, no canal conhecido como SW (Short Wave), poderia sintonizar emissoras ao redor do mundo. 
“Quando comecei a ouvir achei linda a música, mas fiquei com medo porque todas as emissoras estavam transmitindo A Voz do Brasil, a propaganda oficial do governo, e eu não entendia como essa estava tocando outra coisa”. 
Ao ouvir a voz grave do locutor anunciar “Rádio Pequim”, ele compreendeu que estava sintonizado com a China e, para seu espanto, a rádio transmitia em português. O programa falava sobre a luta ideológica que havia entre o comunismo chinês e o soviético. 
Na semana seguinte, o então estudante do ensino médio levou o debate a um professor que, por sua vez, o repreendeu, afirmando que as rádios de ondas curtas eram comunistas. Desde então, a curiosidade falou mais alto e Macedo começou a procurar outras emissoras, dando início a uma paixão que carrega até hoje, aos 57 anos. 
Em suas prateleiras, o professor guarda cerca de 400 fitas cassetes com arquivos antigos. Entre eles existem gravações de Fidel Castro, Adolf Hitler, hinos dos países comunistas da época e até uma declaração do Almirante Tojo, famoso criminoso de guerra japonês, sobre o combate contra os Estados Unidos, na Segunda Guerra Mundial. 
Macedo divide esse valioso acervo com os ouvintes da Rádio Aparecida, onde, desde 1990, apresenta um programa em que, além de reproduzir as gravações que possui, fala sobre curiosidades e fatos históricos do rádio. 
Segundo ele, “o objetivo de uma emissora transmitir internacionalmente é difundir a questão política, ideológica e passar informações sobre o país”. 
Historiadores apontam a utilização das ondas curtas para a transmissão internacional a partir de 1917, durante a Revolução Russa, como uma forma encontrada pelos socialistas de explicar ao mundo o que ocorria, mas também de alcançar a população do país. 
Em meados dos anos 30, as ondas curtas ganharam força, quando surgiram as rádios de cunho fascista e, em contrapartida, as emissoras dos países aliados. A possibilidade de transmitir internacionalmente tornou-se uma forma de luta muito utilizada pelos países envolvidos na Segunda Guerra Mundial, como ocorreu posteriormente durante a Guerra Fria. Era comum que as rádios tivessem programação voltada para vários países, transmitindo na língua local. E a briga ideológica era acirrada. 
A Rádio Central de Moscou, por exemplo, transmitia, durante a Guerra Fria, três horas direto para o Brasil, das 19h às 22h. Só que no mesmo horário a concorrência ficava a cargo da The Voice of America, comunicando a visão dos Estados Unidos. Durante o regime militar brasileiro também havia a Rádio Nacional do Brasil, transmitindo em francês, inglês e espanhol para diversos países. 
Foi em um programa da rádio Havana que Macedo soube que havia tortura no Brasil. E pela BBC de Londres ele conheceu diversas bandas antes de serem lançadas aqui, como a dupla Simon & Garfunkel. Hoje, é pelas ondas curtas que ele se informa sobre o que ocorre em países fechados, como a Coreia do Norte, onde a internet é controlada. “Eu aprendi muito mais com o rádio do que na faculdade. O rádio é uma universidade no ar” afirma ele, que entende inglês e espanhol por causa dos muitos anos que passou conectado com as rádios internacionais. 
Atualmente, o professor reconhece que algumas rádios perderam o cunho político e agora são usadas para o proselitismo religioso. “A gente chama de rádio varal porque tem muito pregador”, brinca. Mas ele cita a Rádio Miami Internacional como uma daquelas que ainda mantêm o teor político-ideológico. A rádio transmite dos Estados Unidos diretamente para Cuba idéias contra o governo vigente no país. 
Além disso, apesar de muitas rádios terem reduzido as línguas de transmissão, a China, por exemplo, continua se comunicando em mais de 40 idiomas. 
Foi em uma festa da Rádio Internacional da China, no Rio de Janeiro, que Macedo encontrou, anos depois da descoberta das ondas curtas, o locutor que descortinou todo o universo de notícias e conhecimento que o fez se especializar na história do rádio. Era Jaime Martins, que foi até a China trabalhar no serviço de Português da Rádio Pequim e lá ficou como correspondente por mais de 20 anos. 
Martins fala sobre a importância do rádio lembrando que “quando existe um golpe militar a primeira coisa que se toma é a rádio. É um serviço indispensável para quem quer estar em cima da hora”. 
Para os chamados “DXistas”, ou rádio-escutas, o fato de estar por dentro de tudo o que ocorre no mundo, sem depender da intermediação dos meios que mantêm o monopólio da comunicação, é um dos grandes atrativos das ondas curtas. “É um prazer saber que estamos acessando informações que pouca gente está tendo“, explica Macedo. 
Outra característica dos “Dxistas” é colecionar cartões, conhecidos como QSL, que confirmam que o ouvinte realmente conseguiu se conectar com a emissora estrangeira. Para eles não basta apenas sintonizar a rádio, é necessário ter a comprovação, por isso eles recebem o cartão. Macedo já conta 110 QSLs, entre eles algumas raridades, como rádios do Irã ou até da extinta Alemanha Oriental. 
A quantidade de cartões sem dúvida denuncia que ele passa a maior parte de seu tempo livre conectado com as emissoras estrangeiras, procurando sons ao acaso. A sutil transição do chiado para a identificação de uma melodia, de uma língua que pode ser completamente diferente, ou de uma música pouco familiar encanta Macedo. “O rádio é uma válvula de escape para mim”, desabafa ele, que deve encerrar a entrevista, pois em apenas alguns minutos terá início o seu programa favorito, em uma rádio alemã. 
Na verdade, trata-se de um dos poucos momentos de prazer em meio à semana que transcorre entre aulas agitadas com adolescentes desatentos que pouco sabem sobre o universo que o seu professor de história descobriu através do rádio. 

Fonte: Carta Capital por Luana Lila

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Resumo para o "Solar-Terrestrial Data"

Variações no campo magnético da Terra são medidos por magnetômetros.
Dois índices são calculados:
Índice K - Faixa de 0 a 9, 0 é calma
Índice A - Usa a média das 8 leituras do índice K, Faixa de 0-400
Geralmente um Índice A igual ou inferior a 15 ou um índice K igual ou inferior a 3 é o melhor para a propagação HF.
Elevados índices A e K reduzem as MUFs, mas ocasionalmente MUFs em baixas latitudes podem aumentar quando os índices A e K são elevados.
Veja no quadro acima, tanto os dados relativos a data de hoje (UTC), quanto a faixa de variação dos índices K e A:

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